Mostrando postagens com marcador Projeto Viramundo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Projeto Viramundo. Mostrar todas as postagens

22 novembro 2010

Lava-rápido submarino

Conheci uma bióloga do Tamar, a Alice, que, vivendo numa ilha sem grandes opções de entretenimento, tinha no mar tanto o seu local de trabalho quanto seu espaço de lazer.

Com os olhos e reflexos habituados à presença e à movimentação das tartarugas, Alice tinha sua atenção atraída pelos animais, mesmo nas horas de folga, quando a razão dos seus mergulhos deveria ser justamente uma pausa no seu trabalho cotidiano. Para desligar o seu módulo bióloga, a solução foi o surfe. Ela precisava estar acima das ondas para evitar o ímpeto de investigação da vida marinha.

Em suas espionagens, Alice registrou uma interação interessante entre uma tartaruga-de-pente e uma lagosta. A tartaruga nadava até a boca da toca da lagosta, inseria a ponta de uma das nadadeiras ali e esperava. Depois de um tempo, a lagosta saía de sua toca e caminhava sobre a nadadeira comendo o lodo e os parasitas acumulados.

Uma espécie de lava rápido drive-thru.

Esse tipo de relação é chamado de protocooperação: ambos indivíduos são beneficiados, ainda que não dependam da interação para sobreviver. A tartaruga recebe uma limpeza de pele, previne doenças e elimina parasitas, enquanto a lagosta tem comida barata, sem risco e entregue em casa.

A tese de mestrado da Alice, embasada por essas e outras observações, era de que quanto mais variadas e complexas forem as relações biológicas, com presença de interações harmônicas entre diferentes espécies, mais equilibrado é o ecossistema.

Sistemas em desequilíbrio tendem a ser dominados por relações de competição, predação e parasitismo, enquanto ecossistemas saudáveis permitem, também, relações harmônicas como a do exemplo.

Acho que isso podia ser metáfora de alguma coisa.

09 outubro 2009

Ilhados

“O paraíso é aqui” foi a expressão utilizada por Américo Vespúcio, em 1503, para descrever Fernando de Noronha, no primeiro registro histórico de presença humana na ilha. O naufrágio de uma das naus da “Segunda expedição exploradora” nas proximidades do arquipélago parece não ter abalado o senso estético do navegador de Florença.

No entanto, por mais de um século, a ilha não teve ocupação ordenada, sendo usada eventualmente como entreposto e pit stop por navegadores perdidos ou piratas da região do Caribe.

Foi apenas em 1737 que a Coroa portuguesa, após tentativas frustradas de invasão de ingleses, holandeses e franceses, finalmente iniciou a ocupação definitiva da ilha por seu valor estratégico na defesa nacional.

A ilha, que já foi presídio, hoje vive do turismo ecológico, elevada à categoria de Patrimônio Mundial pela Unesco por conta da biodiversidade marinha e dos diversos institutos de pesquisa sediados ali. Golfinho rotador, baleia jubarte e tartaruga marinha são algumas das espécies estudas.

Pelo seu status de Parque Nacional, são muito restritas atividades econômicas de qualquer natureza, em especial agricultura e pecuária, o que encarece ainda mais o custo de vida no local, já elevado pelo alto custo do transporte oriundo do continente e pela pressão dos dólares do turismo internacional.

O espaço limitado e as regras rígidas para construção e permanência na ilha tornam a moradia um dos principais problemas do local. As pessoas sem educação formal, em geral descendentes de presidiários, militares e pescadores, são as mais afetadas pela dificuldade de adequação aos procedimentos burocráticos exigidos.



O foco do documentário "Ilhados", gravado durante um mês em Noronha, foi a vida dos moradores, as dificuldades e os motivos de permanência na Ilha, geralmente esquecidos pelos turistas (por motivos até compreensíveis) e por outras reportagens, geralmente focadas na beleza do lugar e na exuberância da vida marinha.

Uma produção Projeto Viramundo: João Queirolo, Camilla Shinoda, Cauê Maia, Leonardo Feijão, Melissa Mustefaga, Rebeca Damian.

06 outubro 2009

submundo das tartarugas marinhas

Projeto Viramundo, Fernando de Noronha, 24/Julho/2008
Um dia li um texto do Borges que explicava que a primeira tartaruga que existiu, aquela que deu origem ao Planeta Terra, surgiu da luz da constelação de sagitário. Símbolo de longevidade, paciência, proteção, segurança. Era uma justificativa melhor do que a primeira que me lembro para o início da minha fixação por tartarugas.

Michelangelo foi o nome do meu primeiro gato siamês, lá pelos meus 8 anos, não em homenagem ao pintor renascentista, mas sim à tartaruga ninja de máscara laranja. Não tenho certeza o que foi causa e o que foi conseqüência, mas as ninjas passaram e as tartarugas permaneceram na forma de chaveiros, luminárias, bonecos, peças de artesanato.

É pena neste momento não termos uma câmera subaquática. As espécies são conhecidas, documentários e programas educativos sobre a vida marinha são abundantes, mas ficar cara a cara com as raias e nadar com as tartarugas tem sido experiências que eu gostaria de registrar.

O resto da equipe estava em Recife, perdida nas desconexões da Varig, enquanto eu e o Feijão, que desconfiamos desde o princípio da pontualidade da empresa, chegávamos em Noronha. A despeito da chuva que se anunciava, fomos para o Boldró, a praia mais próxima. E ali mesmo, sem máscara de mergulho nem nada, vimos a primeira tartaruga da viagem, emergindo a poucos metros de nós para respirar.

No dia seguinte veria mais uma, descansando num buraco em meio aos corais da Baía dos Porcos. Nesses primeiros encontros fiquei apenas paralisado, sem respirar. Foi aos poucos que comecei a acompanhá-las a distancia.

Hoje já não me sinto tão estrangeiro no mar e estou me acostumando a nadar na presença e no ritmo das tartarugas. Já fiz algumas amigas, como a famosa Mordidinha e duas de-pente juvenis (tartarugas que não atingiram a idade de reprodução e ficam nos arredores da Ilha se alimentando e ganhando peso antes de se jogarem numa corrente transoceânica qualquer), que volta e meia aparecem na Baia dos Porcos ou do Sancho.

Vejo com o encantamento de um pai diante do filho recém nascido as tartarugas-de-pente comendo águas-vivas e corais, respirando, tirando um relax nas pedras, ou só fazendo a ronda pelos corais com os peixinhos coloridos dando uma polida no casco. Se eu soubesse antes que a sistematização das informações coletadas com o acompanhamento destes seres poderia ser uma profissão, é possível que minhas escolhas fossem outras no passado.

14 julho 2009

tartarugas investem em quantidade


As tartarugas marinhas passam cada etapa de suas vidas em um lugar diferente. Esse instinto migratório justifica o ensinamento popular de que ovos não se põem todos numa única cesta.

Quando algum desastre natural ou predação generalizada eventualmente dizimava a população tartaruguística de uma dada área, em outros lugares, primos, irmãos e sobrinhos seguiam suas vidas. Isso sem nunca receber um telegrama sequer das parentes.

As tartarugas, assim como o Michel Gondry, acreditam que "qualidade passa, quantidade fica". O cuidado materno consiste em cavar um buraco na praia, depositar os ovos ali, cobrir o ninho com areia e é isso. Dali pra frente, aposta-se na probabilidade. As recém nascidas estão por sua própria conta desde a desova.

Segundo estimativas do Projeto Tamar, uma em cada mil tartaruguinhas chega à vida adulta.