Antes de dormir, a garota ouvia uma dessas histórias de "foram felizes para sempre". Já meio sonolenta, no final da leitura, ela pergunta:
- Mãe, depois que a história acaba, pra onde vão as pessoas felizes?
- Acho que pro facebook, filha, postar as últimas fotos da viagem de Paris.
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27 abril 2011
24 dezembro 2010
garota esperta 8 - edição de natal
Os embrulhos de presente rasgados e abandonados debaixo do pinheiro de plástico se misturavam às lembrancinhas e brinquedos também esquecidos ali.
O verdadeiro elemento de coesão familiar naquele ano foi a raquete elétrica de matar mosquito.
A mãe procurava as muriçocas com o dedo no gatilho do choque, enquanto sua filha atrás puxava-lhe a calça e dizendo "eu também quero matar, eu também quero matar".
- Agora é a vez da mamãe. - Ela respondia, com um sorriso meio assassino, enquanto fritava na raquete um pernilongo mais gordo do sangue chupado da noite anterior.
O verdadeiro elemento de coesão familiar naquele ano foi a raquete elétrica de matar mosquito.
A mãe procurava as muriçocas com o dedo no gatilho do choque, enquanto sua filha atrás puxava-lhe a calça e dizendo "eu também quero matar, eu também quero matar".
- Agora é a vez da mamãe. - Ela respondia, com um sorriso meio assassino, enquanto fritava na raquete um pernilongo mais gordo do sangue chupado da noite anterior.
16 dezembro 2009
garota esperta 7
A garota estava apaixonada. Irremediavelmente apaixonada, (ela pensava).
Neste domingo, na casa de sua mãe, deitada para dormir, ela traça planos para o dia seguinte na escola. Imagina cenas, ensaia palavras e gestos, especulando consequências. O que poderia fazer para se aproximar, qual seria o caminho certo?
Existia nela uma curiosidade e um desejo, mas ela não sabia direito pra onde ia tudo aquilo. Aproximar-se, declarar-se, beijar o menino da escola. Parecia simples. E se não fosse? Tinha medo. Ela não sabia o que ele pensava dela, o que sentia por ela, não sabia qual seria sua reação. Ia doer se ele dissesse não. E nesse limiar de consciência, numa fantasia semi-adormecida, ela imagina o super-poder que resolveria sua situação.
Algo que fizesse o menino ver (sem que ela tivesse que falar) que o que ela sentia era bom, e que ela era uma garota esperta e bonita, e que ela sentia uma dor fechada no peito quando os dois se despediam na escola, mas que abria um sorriso tão grande quando encontrava com ele de novo no dia seguinte, que não tinha como eles não serem felizes juntos. Tudo parecia tão certo. O que faltava para que ele percebesse? Ela imagina um jeito de entrar na cabeça dele, de fazê-lo ver tudo do jeito que ela vê.
E nesse quase-sonho, ela vê sua alma saindo do corpo, viajando entre os prédios e viadutos da cidade, procurando, procurando, até achar a casa do menino e aterrissar lá dentro do coração dele, para que ele sentisse exatamente o que ela sente. Aí a sua alma mostraria para ele o quanto os dois combinavam e quão absurdo era que estivessem separados até agora.
E no dia seguinte, a primeira coisa que ele faria na escola seria beijá-la.
Ela pisca, mansinha, quase dormindo, embalada na certeza de que sua alma está lá, e que amanhã ela volta, trazendo ele junto.
"Mas, peraí", - ela pensa - "se minha alma está lá com ele, quem é que está aqui comigo”? E para onde teria ido a alma dele enquanto a dela está lá? Um corpo não pode ter duas almas, nem uma alma pode controlar dois corpos, ela se assombra.
Ela imagina um tipo de dança das cadeiras, e todas as alminhas expulsas dos seus corpos, revoando como borboletas à procura de um coração vazio pra aterrissar. E se a sua alma se perdesse no caminho e ficasse pra sempre vagando, saltando de uma pessoa pra outra, sem conseguir voltar? E se alguma alma safada e oportunista resolvesse ocupar o seu corpo abandonado? E se a alma do menino da escola estivesse, naquele momento, procurando exatamente o coração dela para pousar?
Foi com esse último pensamento que ela conseguiu adormecer.
Neste domingo, na casa de sua mãe, deitada para dormir, ela traça planos para o dia seguinte na escola. Imagina cenas, ensaia palavras e gestos, especulando consequências. O que poderia fazer para se aproximar, qual seria o caminho certo?
Existia nela uma curiosidade e um desejo, mas ela não sabia direito pra onde ia tudo aquilo. Aproximar-se, declarar-se, beijar o menino da escola. Parecia simples. E se não fosse? Tinha medo. Ela não sabia o que ele pensava dela, o que sentia por ela, não sabia qual seria sua reação. Ia doer se ele dissesse não. E nesse limiar de consciência, numa fantasia semi-adormecida, ela imagina o super-poder que resolveria sua situação.
Algo que fizesse o menino ver (sem que ela tivesse que falar) que o que ela sentia era bom, e que ela era uma garota esperta e bonita, e que ela sentia uma dor fechada no peito quando os dois se despediam na escola, mas que abria um sorriso tão grande quando encontrava com ele de novo no dia seguinte, que não tinha como eles não serem felizes juntos. Tudo parecia tão certo. O que faltava para que ele percebesse? Ela imagina um jeito de entrar na cabeça dele, de fazê-lo ver tudo do jeito que ela vê.
E nesse quase-sonho, ela vê sua alma saindo do corpo, viajando entre os prédios e viadutos da cidade, procurando, procurando, até achar a casa do menino e aterrissar lá dentro do coração dele, para que ele sentisse exatamente o que ela sente. Aí a sua alma mostraria para ele o quanto os dois combinavam e quão absurdo era que estivessem separados até agora.
E no dia seguinte, a primeira coisa que ele faria na escola seria beijá-la.
Ela pisca, mansinha, quase dormindo, embalada na certeza de que sua alma está lá, e que amanhã ela volta, trazendo ele junto.
"Mas, peraí", - ela pensa - "se minha alma está lá com ele, quem é que está aqui comigo”? E para onde teria ido a alma dele enquanto a dela está lá? Um corpo não pode ter duas almas, nem uma alma pode controlar dois corpos, ela se assombra.
Ela imagina um tipo de dança das cadeiras, e todas as alminhas expulsas dos seus corpos, revoando como borboletas à procura de um coração vazio pra aterrissar. E se a sua alma se perdesse no caminho e ficasse pra sempre vagando, saltando de uma pessoa pra outra, sem conseguir voltar? E se alguma alma safada e oportunista resolvesse ocupar o seu corpo abandonado? E se a alma do menino da escola estivesse, naquele momento, procurando exatamente o coração dela para pousar?
Foi com esse último pensamento que ela conseguiu adormecer.
12 novembro 2009
garota esperta 6
A mãe, preocupada com o futuro da garota, liga para o pai:
- Essa garota anda com um comportamento muito estranho. Com que tipo de gente ela anda convivendo quando está com você?
- Só gente de confiança, pode ficar tranquila.
- Ela passa o dia no quarto, lendo quadrinho e ouvindo música, de incenso aceso.
- Olha só que moça privilegiada essa nossa filha.
- Veio me dizer outro dia que achava que a mulher tinha o direito de decidir sobre seu corpo e seu futuro e que o SUS devia fazer aborto de graça.
- E você achou isso um absurdo?
- Acho que ela tá muito cheia de argumento pro meu gosto.
01 outubro 2009
garota esperta 5
A menina foi com o pai assistir a uma peça da nova namorada dele. Acabaram todos ficando mais um pouco, para o coquetel, ajudando no bar do teatro. Quando chegava um comprador, a garota se metia na frente do pai e logo perguntava:
- Uma breja? - e já deslizava a latinha pelo balcão.Uma hora ela foi na padaria do lado, buscar duas de cinco pra trocar uma de dez. O cara da padaria perguntou, enquanto dava o troco:
- Quanto anos você tem? - perguntava o cliente.
- 11.
- Muito bem. É bom começar cedo, que logo aprende que não presta.
- O que você vai fazer quando crescer?
- Usar bota e fumar cigarro, que nem a Paulinha, a namorada do meu pai. Ela é atriz.
15 setembro 2009
garota esperta 4
- Recebi um recado da sua professora dizendo que você não fez o dever de casa de novo. Tá muito desleixada a senhorita, ouviu.
- Não tive tempo.
- Não teve tempo!? Passou a tarde inteira olhando pro vento, rolando tatu-bola. Tempo você teve, você que não aproveitou.
- Eu aproveitei. Por isso que não tive tempo.
30 agosto 2009
garota esperta 3
Pai e filha estão de carro, rumo à casa da nova namorada dele.
- Vai demorar muito ainda?A menina, no banco de trás, observa pela janela a paisagem que passa.
- Demora só até chegar.
- Humptf.
- Quantas namoradas você já teve?Ela pega o celular, fica fuçando nos joguinhos.
- Namoradas mesmo, umas 8.
- Você lembra de todas ou é uma estimativa?
- "Estimativa"?! Algumas eu lembro mais, mas lembro de todas sim. Não o tempo todo.
- Da mamãe você lembra, né?
- Lembro bastante.
- Você vai conhecer a Paulinha. Ela é muito legal.
- Tomara. O que ela faz da vida?
- Ela é atriz.
- Ela é a mulher da sua vida?
- Não.
- Como você sabe?
- Digamos que eu desconfio.
- E ela sabe disso?
- Acho que ela também desconfia.
31 julho 2009
garota esperta 2
- Tá tomando sol, é?Ele diz enquanto avança sobre ela, a vira de lado na espreguiçadeira e morde suas costelas. Ela ri.
- Não, to tomando suco de laranja, não tá vendo?
- Ah, sua safada respondona.
- Perdão. Perdão. Não respondo mais.Ele solta a menina, que se vira de bruços. Ele lhe dá um tapa na bunda e diz que era bom mesmo que não respondesse, porque da próxima vez seria pior, e que subisse logo pra tomar banho e fazer o dever.
- Já tô fazendo. - Ela diz. - A professora falou pra não esquentar com esse lance de dever. Ela disse pra passar a tarde observando a vida e à noite escrever um poema.
- Sei. Professora maconheira.
- Respeita minha professora!
- E você também fica ligada. Tá muito espertinha pro meu gosto.
- Pera aí. É pra ficar ligada ou pra deixar de ser esperta? Decida-se.
26 abril 2009
garota esperta 1
- Mamãe, lembra quando eu descobri que papai noel não existia?
- Lembro sim. Você sempre foi muito esperta.
- Então, eu não quero mais ir na missa domingo.
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