O Movimento Foda-se Tudo (MFT), agente histórico na batalha em prol das pessoas classificadas pelo Ministério da Vida Alheia como "impróprias para o convívio humano", inova mais uma vez, com a criação do Núcleo de Atenção aos Órfãos do Bom Senso.
O novo Núcleo, já em funcionamento, é pioneiro no trabalho árduo de trazer alento e sensação de pertencimento aos portadores do chamado Distúrbio de Déficit de Superego (DDS). O mal atinge pelo menos 79 milhões de pessoas, apenas no Brasil. O número tende a aumentar.
Desconhecido até recentemente, o DDS já vem causando rebuliço na indústria farmacêutica, desde a publicação do artigo científico "Ausência de noção tem remédio?", de autoria do ilustre Dr. Killberg e financiado pela Hipocondríacos S.A..
Os principais sintomas do DDS são a falta de autocrítica, a insensibilidade perante o desprezo alheio e a perda de noção da realidade. Quem sofre desse mal tende a vagar errante, não encontrando acolhimento ou função na sociedade.
O curioso é que 87% dos que sofrem de DDS foram criados em famílias compreensivas e afetivas. Segundo Dr. Killberg, as famílias harmoniosas falham justamente por não serem capazes de preparar seus filhos para o mundo real e seus embates cotidianos.
O Núcleo de Atenção aos Órfãos do Bom Senso atua exatamente na perspectiva de reintegração social por meio de um "choque de realidade". O tratamento inclui a terapia medicamentosa prescrita pelo Dr. Killberg, além de doses periódicas de café e cigarros para estimular a produtividade. Eletrochoque e espancamento policial são utilizados ocasionalmente, em dias festivos.
Já para os sofridos casos de DDS agudo, a solução encontrada ainda é o encaminhamento para instituições universitárias (abrigo histórico dos desconectados do mundo), ou ainda para o ofício das artes, atividade de baixo potencial ofensivo, uma vez que a compreensão não é pré-requisito.
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16 março 2011
14 março 2011
Por que tolerar a existência dos poetas ? ESPECIAL DIA DA POESIA
Em sua "Poética", Aristóteles define o ofício do poeta como sendo o de representar situações, ambientes e personagens possíveis, em oposição à atividade do historiador, que buscaria a narrativa do que realmente aconteceu. Nesse contexto, poesia e filosofia se aproximam, afirma o filósofo grego, por referirem-se ambas não ao particular, mas ao universal.
No poema 'O guardador de rebanhos', o eu-lírico de Alberto Caeiro define-se poeta e compara sua alma a um pastor que tem por rebanho suas idéias. Outra forma de referir-se à dupla vocação da poesia, tanto para a sistematização do conhecimento humano, quanto para a investigação do mundo natural.
Converter sentimentos em metáforas e objetos em símbolos é meio de acessar um sentido mais profundo e mais perene das experiências cotidianas. Quando um poema fala do escorpião e sua natureza impiedosa e imutável, reproduz uma mitologia que perpassa povos e tempos, territórios e culturas as mais distantes.
Dizer da vida que dura o tempo de um cigarro ressalta o que há de efêmero nessa natureza, enquanto dizer que o morto vira semente enfatiza o que há de cíclico, de renovação. São ambas imagens intuitivas, concisas e populares, próximas ou distantes da realidade a depender do momento e do ponto de vista do observador, mas igualmente válidas, ainda que aparentemente opostas.
Metáforas podem descrever a natureza de arquétipos ancestrais, sem deixar de referir-se por analogia a situações do presente. Escrever (e estudar) poesia é aproximar-se desse esforço coletivo e permanente da humanidade, de distinção entre o transitório e a essência.
É por isso que eu defendo que a poesia não seja eliminada do mundo por Decreto-Lei, e que os poetas, ainda que falsos, perdidos ou pernetas, não sejam fuzilados a priori, (ressalvadas as devidas exceções).
No poema 'O guardador de rebanhos', o eu-lírico de Alberto Caeiro define-se poeta e compara sua alma a um pastor que tem por rebanho suas idéias. Outra forma de referir-se à dupla vocação da poesia, tanto para a sistematização do conhecimento humano, quanto para a investigação do mundo natural.
Converter sentimentos em metáforas e objetos em símbolos é meio de acessar um sentido mais profundo e mais perene das experiências cotidianas. Quando um poema fala do escorpião e sua natureza impiedosa e imutável, reproduz uma mitologia que perpassa povos e tempos, territórios e culturas as mais distantes.
Dizer da vida que dura o tempo de um cigarro ressalta o que há de efêmero nessa natureza, enquanto dizer que o morto vira semente enfatiza o que há de cíclico, de renovação. São ambas imagens intuitivas, concisas e populares, próximas ou distantes da realidade a depender do momento e do ponto de vista do observador, mas igualmente válidas, ainda que aparentemente opostas.
Metáforas podem descrever a natureza de arquétipos ancestrais, sem deixar de referir-se por analogia a situações do presente. Escrever (e estudar) poesia é aproximar-se desse esforço coletivo e permanente da humanidade, de distinção entre o transitório e a essência.
É por isso que eu defendo que a poesia não seja eliminada do mundo por Decreto-Lei, e que os poetas, ainda que falsos, perdidos ou pernetas, não sejam fuzilados a priori, (ressalvadas as devidas exceções).
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