24 dezembro 2009
2010 foi ótimo. pena que passou tão rápido
Calma, rapaz, que a juventude é um defeito que se supera com um dia de cada vez.
22 dezembro 2009
21 dezembro 2009
visões do mesmo
Fui ao psiquiatra. O cara me deu um questionário pra preencher, com perguntas do tipo "você se sente desvalorizado"?, "já pensou em suicídio"?, etc. Cada resposta "sim" pesava um ponto contra mim.
Nunca fui bom pra perguntas de sim ou não. Pior ainda quando são sobre o que sinto ou o que penso. Também nunca confiei em médicos. "Pensar em suicídio no sentido de algo que eu já vi acontecer perto de mim?, no sentido de um desejo, de uma possibilidade, de uma meta?, no sentido do último reduto do meu livre arbítrio?" - eu pensei, mas não existiam essas possibilidades no formulário. Pensei também se existia alguém que não se sentisse desvalorizado nessa sociedade de consumo. Enfim, foda-se. Sim ou não.
Custou caro a consulta, mas ganhei uma amostra grátis de Prozac. Parecia justo. Já no meio da caixinha, sentia que aquelas cápsulas retardavam meu tempo de reação pra vida. Alguém dizia alguma coisa, e eu tinha uma resposta, mas minha boca demorava a se mover. Era uma forma de evitar a impulsividade (vantagem pros destrambelhados, cujo primeiro ímpeto, em geral, não é o mais brilhante), mas minha mente permanecia ansiosa. Não curti a onda e parei com aquilo antes que aprendesse a gostar.
Em outra ocasião fui num terreiro de umbanda. A liturgia era bem diferente da do consultório psiquiátrico, mas a primeira consulta era grátis. O preto velho disse que eu precisava desenvolver a minha mediunidade e me deu uma pedrinha bonita, que era pra eu levar comigo sempre, uma proteção, mas que perdi logo depois.
Em comparação com a idéia de tomar um remédio que me distanciasse do mundo e atenuasse quimicamente minhas dores de consciência, desenvolver a mediunidade me pareceu válido. Mais por considerar todo aprendizado legítimo como forma de gastar a vida, do que por adivinhar o que estaria implicado naquelas palavras. Mas não fui muito além nesse processo também.
Semana que vem vou num culto evangélico neo-pentecostal. Talvez um exorcismo simples e direto resolva melhor minha situação. Só não sei como é a tabela de preços por lá.
Nunca fui bom pra perguntas de sim ou não. Pior ainda quando são sobre o que sinto ou o que penso. Também nunca confiei em médicos. "Pensar em suicídio no sentido de algo que eu já vi acontecer perto de mim?, no sentido de um desejo, de uma possibilidade, de uma meta?, no sentido do último reduto do meu livre arbítrio?" - eu pensei, mas não existiam essas possibilidades no formulário. Pensei também se existia alguém que não se sentisse desvalorizado nessa sociedade de consumo. Enfim, foda-se. Sim ou não.
Custou caro a consulta, mas ganhei uma amostra grátis de Prozac. Parecia justo. Já no meio da caixinha, sentia que aquelas cápsulas retardavam meu tempo de reação pra vida. Alguém dizia alguma coisa, e eu tinha uma resposta, mas minha boca demorava a se mover. Era uma forma de evitar a impulsividade (vantagem pros destrambelhados, cujo primeiro ímpeto, em geral, não é o mais brilhante), mas minha mente permanecia ansiosa. Não curti a onda e parei com aquilo antes que aprendesse a gostar.
Em outra ocasião fui num terreiro de umbanda. A liturgia era bem diferente da do consultório psiquiátrico, mas a primeira consulta era grátis. O preto velho disse que eu precisava desenvolver a minha mediunidade e me deu uma pedrinha bonita, que era pra eu levar comigo sempre, uma proteção, mas que perdi logo depois.
Em comparação com a idéia de tomar um remédio que me distanciasse do mundo e atenuasse quimicamente minhas dores de consciência, desenvolver a mediunidade me pareceu válido. Mais por considerar todo aprendizado legítimo como forma de gastar a vida, do que por adivinhar o que estaria implicado naquelas palavras. Mas não fui muito além nesse processo também.
Semana que vem vou num culto evangélico neo-pentecostal. Talvez um exorcismo simples e direto resolva melhor minha situação. Só não sei como é a tabela de preços por lá.
16 dezembro 2009
garota esperta 7
A garota estava apaixonada. Irremediavelmente apaixonada, (ela pensava).
Neste domingo, na casa de sua mãe, deitada para dormir, ela traça planos para o dia seguinte na escola. Imagina cenas, ensaia palavras e gestos, especulando consequências. O que poderia fazer para se aproximar, qual seria o caminho certo?
Existia nela uma curiosidade e um desejo, mas ela não sabia direito pra onde ia tudo aquilo. Aproximar-se, declarar-se, beijar o menino da escola. Parecia simples. E se não fosse? Tinha medo. Ela não sabia o que ele pensava dela, o que sentia por ela, não sabia qual seria sua reação. Ia doer se ele dissesse não. E nesse limiar de consciência, numa fantasia semi-adormecida, ela imagina o super-poder que resolveria sua situação.
Algo que fizesse o menino ver (sem que ela tivesse que falar) que o que ela sentia era bom, e que ela era uma garota esperta e bonita, e que ela sentia uma dor fechada no peito quando os dois se despediam na escola, mas que abria um sorriso tão grande quando encontrava com ele de novo no dia seguinte, que não tinha como eles não serem felizes juntos. Tudo parecia tão certo. O que faltava para que ele percebesse? Ela imagina um jeito de entrar na cabeça dele, de fazê-lo ver tudo do jeito que ela vê.
E nesse quase-sonho, ela vê sua alma saindo do corpo, viajando entre os prédios e viadutos da cidade, procurando, procurando, até achar a casa do menino e aterrissar lá dentro do coração dele, para que ele sentisse exatamente o que ela sente. Aí a sua alma mostraria para ele o quanto os dois combinavam e quão absurdo era que estivessem separados até agora.
E no dia seguinte, a primeira coisa que ele faria na escola seria beijá-la.
Ela pisca, mansinha, quase dormindo, embalada na certeza de que sua alma está lá, e que amanhã ela volta, trazendo ele junto.
"Mas, peraí", - ela pensa - "se minha alma está lá com ele, quem é que está aqui comigo”? E para onde teria ido a alma dele enquanto a dela está lá? Um corpo não pode ter duas almas, nem uma alma pode controlar dois corpos, ela se assombra.
Ela imagina um tipo de dança das cadeiras, e todas as alminhas expulsas dos seus corpos, revoando como borboletas à procura de um coração vazio pra aterrissar. E se a sua alma se perdesse no caminho e ficasse pra sempre vagando, saltando de uma pessoa pra outra, sem conseguir voltar? E se alguma alma safada e oportunista resolvesse ocupar o seu corpo abandonado? E se a alma do menino da escola estivesse, naquele momento, procurando exatamente o coração dela para pousar?
Foi com esse último pensamento que ela conseguiu adormecer.
Neste domingo, na casa de sua mãe, deitada para dormir, ela traça planos para o dia seguinte na escola. Imagina cenas, ensaia palavras e gestos, especulando consequências. O que poderia fazer para se aproximar, qual seria o caminho certo?
Existia nela uma curiosidade e um desejo, mas ela não sabia direito pra onde ia tudo aquilo. Aproximar-se, declarar-se, beijar o menino da escola. Parecia simples. E se não fosse? Tinha medo. Ela não sabia o que ele pensava dela, o que sentia por ela, não sabia qual seria sua reação. Ia doer se ele dissesse não. E nesse limiar de consciência, numa fantasia semi-adormecida, ela imagina o super-poder que resolveria sua situação.
Algo que fizesse o menino ver (sem que ela tivesse que falar) que o que ela sentia era bom, e que ela era uma garota esperta e bonita, e que ela sentia uma dor fechada no peito quando os dois se despediam na escola, mas que abria um sorriso tão grande quando encontrava com ele de novo no dia seguinte, que não tinha como eles não serem felizes juntos. Tudo parecia tão certo. O que faltava para que ele percebesse? Ela imagina um jeito de entrar na cabeça dele, de fazê-lo ver tudo do jeito que ela vê.
E nesse quase-sonho, ela vê sua alma saindo do corpo, viajando entre os prédios e viadutos da cidade, procurando, procurando, até achar a casa do menino e aterrissar lá dentro do coração dele, para que ele sentisse exatamente o que ela sente. Aí a sua alma mostraria para ele o quanto os dois combinavam e quão absurdo era que estivessem separados até agora.
E no dia seguinte, a primeira coisa que ele faria na escola seria beijá-la.
Ela pisca, mansinha, quase dormindo, embalada na certeza de que sua alma está lá, e que amanhã ela volta, trazendo ele junto.
"Mas, peraí", - ela pensa - "se minha alma está lá com ele, quem é que está aqui comigo”? E para onde teria ido a alma dele enquanto a dela está lá? Um corpo não pode ter duas almas, nem uma alma pode controlar dois corpos, ela se assombra.
Ela imagina um tipo de dança das cadeiras, e todas as alminhas expulsas dos seus corpos, revoando como borboletas à procura de um coração vazio pra aterrissar. E se a sua alma se perdesse no caminho e ficasse pra sempre vagando, saltando de uma pessoa pra outra, sem conseguir voltar? E se alguma alma safada e oportunista resolvesse ocupar o seu corpo abandonado? E se a alma do menino da escola estivesse, naquele momento, procurando exatamente o coração dela para pousar?
Foi com esse último pensamento que ela conseguiu adormecer.
15 dezembro 2009
14 dezembro 2009
05 dezembro 2009
é provável que talvez, a menos que sei lá
Ainda no intento de contradizer tudo que acredito. Creio ser o que me encanta nas frases curtas e sonoras da sabedoria popular justamente essa capacidade de conjugar, sem constrangimento, o inequívoco e seu oposto.
Foi um camarada de Minas, terra dos adágios, que lembrou desse dito:
Foi um camarada de Minas, terra dos adágios, que lembrou desse dito:
"Diga-me com quem andas e te direi quem és".E mais esses dois, tão verdadeiros quanto o primeiro (me dirão aqueles que já acordaram do avesso), que contradizem direitinho a afinidade e semelhança daqueles que andam juntos:
"Galinha que segue pato morre afogada".
"Pomba que dorme com morcego acorda de cabeça pra baixo".
03 dezembro 2009
02 dezembro 2009
25 novembro 2009
19 novembro 2009
O homem perfeito
As duas amigas conversavam no bar. Algumas cervejas na mente e uma delas sugere uma rodada de tequila. Por que não?
Marina e Cecília se conheceram quando a primeira namorava o Luiz. Acho até que foi ele que apresentou as duas. Nunca foi plenamente esclarecido se houve uma intersecção temporal entre a fase do fim no namoro da Marina e o começo do rolo que o Luiz teve por alguns meses com a Cecília, mas isso também nunca foi investigado a fundo.
Demoraria ainda antes que elas voltassem a se falar. A Ciça não sabe, mas a Marina voltou a pegar o Luiz, fato determinante pra ela perceber que ele realmente não valia a pena. Foi importante para a amizade das duas o dia em que, numa conversa sobre o Luiz, Cecília chorou no colo da Marina (menos por culpa do que pelo acolhimento inesperado da antiga rival), quando o ex comum já era para as duas um nome do passado.
As duas acabaram se tornando, a despeito das probabilidades, companheiras de solteirice e fuleragem. Conversavam agora sobre a noite anterior.
Marina e Cecília se conheceram quando a primeira namorava o Luiz. Acho até que foi ele que apresentou as duas. Nunca foi plenamente esclarecido se houve uma intersecção temporal entre a fase do fim no namoro da Marina e o começo do rolo que o Luiz teve por alguns meses com a Cecília, mas isso também nunca foi investigado a fundo.
Demoraria ainda antes que elas voltassem a se falar. A Ciça não sabe, mas a Marina voltou a pegar o Luiz, fato determinante pra ela perceber que ele realmente não valia a pena. Foi importante para a amizade das duas o dia em que, numa conversa sobre o Luiz, Cecília chorou no colo da Marina (menos por culpa do que pelo acolhimento inesperado da antiga rival), quando o ex comum já era para as duas um nome do passado.
As duas acabaram se tornando, a despeito das probabilidades, companheiras de solteirice e fuleragem. Conversavam agora sobre a noite anterior.
Marina: E na balada ontem, o cara lá falando da eterna busca de um sentido inexistente.
Cecília: E você olhando pra ele e dizendo “me come”.
Marina: Tipo isso. Cada vez mais bêbada, todo mundo indo embora e o cara lá falando. Eu só pensava "mais uma noite perdida".
Cecília: Uma dose de canalhice é importante pra acelerar as coisas, né. Manter o suspense.
Marina: Pra mim pode ser dupla, que eu já criei resistência.
Cecília: No começo é divertido. Foda é quando você resolve namorar e o sujeito não tira nunca da cara aquele olhar de "te peguei / vou te pegar" pra toda mina que passa.
Marina: Aí você faz igual, de preferência com os amigos dele.
Cecília: Ai, que preguiça.
Marina: Vai dizer que você prefere os românticos.
Cecília: Ah, eu gosto. Pronto, falei. Aquele que você acorda no meio da noite e ele tá te olhando dormir com cara de apaixonado.
Marina: Acho que eu ia ficar assustada.
Cecília: Só depois dos três primeiros meses. No começo é muito fofo.
Marina: Por isso que eu gosto do Lucas. Eu mando mensagem, ele liga de volta na hora. Nem troca idéia, diz só "onde você tá? Tô passando aí". Aí ele vem, faz o serviço, não liga no dia seguinte. Sem imprevisto, sem DR, o homem perfeito.
Cecília: Perfeito eu não sei, mas parece um bom custo-benefício.
Marina: Vou te dizer que é, viu. Garçom, mais duas tequilas, por favor.
sob condições adequadas de temperatura e pressão
Uma música marcante de uma fase boa do passado é como um amor quase esquecido.
Se você não tiver vergonha do que foi e não renegar tudo que ocorreu desde então, nada impede que, ao escutar novamente na circunstância correta, sobrevenha aquele mesmo sentido, aquele mesmo encanto de outros tempos, acrescido da nostalgia e de certo distanciamento, como a lembrança de uma vida alheia. Isso, claro, se já tiver passado a fase do abuso, que dá quando se ouve muito a mesma coisa.
E aí você pode se pegar cantando de novo aquela velha música, por mais que pareça, então, inadequado dançá-la publicamente a passos de coreografia como você já fez um dia.
Se você não tiver vergonha do que foi e não renegar tudo que ocorreu desde então, nada impede que, ao escutar novamente na circunstância correta, sobrevenha aquele mesmo sentido, aquele mesmo encanto de outros tempos, acrescido da nostalgia e de certo distanciamento, como a lembrança de uma vida alheia. Isso, claro, se já tiver passado a fase do abuso, que dá quando se ouve muito a mesma coisa.
E aí você pode se pegar cantando de novo aquela velha música, por mais que pareça, então, inadequado dançá-la publicamente a passos de coreografia como você já fez um dia.
12 novembro 2009
garota esperta 6
A mãe, preocupada com o futuro da garota, liga para o pai:
- Essa garota anda com um comportamento muito estranho. Com que tipo de gente ela anda convivendo quando está com você?
- Só gente de confiança, pode ficar tranquila.
- Ela passa o dia no quarto, lendo quadrinho e ouvindo música, de incenso aceso.
- Olha só que moça privilegiada essa nossa filha.
- Veio me dizer outro dia que achava que a mulher tinha o direito de decidir sobre seu corpo e seu futuro e que o SUS devia fazer aborto de graça.
- E você achou isso um absurdo?
- Acho que ela tá muito cheia de argumento pro meu gosto.
11 novembro 2009
toda satisfação é provisória
Ao pessimista, na hora do fracasso, cabe o conforto de dizer "eu já sabia".
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