19 Novembro 2009

O homem perfeito

As duas amigas conversavam no bar. Algumas cervejas na mente e uma delas sugere uma rodada de tequila. Por que não?

Marina e Cecília se conheceram quando a primeira namorava o Luiz. Acho até que foi ele que apresentou as duas. Nunca foi plenamente esclarecido se houve uma intersecção temporal entre a fase do fim no namoro da Marina e o começo do rolo que o Luiz teve por alguns meses com a Cecília, mas isso também nunca foi investigado a fundo.

Demoraria ainda antes que elas voltassem a se falar. A Ciça não sabe, mas a Marina voltou a pegar o Luiz, fato determinante pra ela perceber que ele realmente não valia a pena. Foi importante para a amizade das duas o dia em que, numa conversa sobre o Luiz, Cecília chorou no colo da Marina (menos por culpa do que pelo acolhimento inesperado da antiga rival), quando o ex comum já era para as duas um nome do passado.

As duas acabaram se tornando, a despeito das probabilidades, companheiras de solteirice e fuleragem. Conversavam agora sobre a noite anterior.
Marina: E na balada ontem, o cara lá falando da eterna busca de um sentido inexistente.
Cecília: E você olhando pra ele e dizendo “me come”.
Marina: Tipo isso. Cada vez mais bêbada, todo mundo indo embora e o cara lá falando. Eu só pensava "mais uma noite perdida".
Cecília: Uma dose de canalhice é importante pra acelerar as coisas, né. Manter o suspense.
Marina: Pra mim pode ser dupla, que eu já criei resistência.
Cecília: No começo é divertido. Foda é quando você resolve namorar e o sujeito não tira nunca da cara aquele olhar de "te peguei / vou te pegar" pra toda mina que passa.
Marina: Aí você faz igual, de preferência com os amigos dele.
Cecília: Ai, que preguiça.
Marina: Vai dizer que você prefere os românticos.
Cecília: Ah, eu gosto. Pronto, falei. Aquele que você acorda no meio da noite e ele tá te olhando dormir com cara de apaixonado.
Marina: Acho que eu ia ficar assustada.
Cecília: Só depois dos três primeiros meses. No começo é muito fofo.
Marina: Por isso que eu gosto do Lucas. Eu mando mensagem, ele liga de volta na hora. Nem troca idéia, diz só "onde você tá? Tô passando aí". Aí ele vem, faz o serviço, não liga no dia seguinte. Sem imprevisto, sem DR, o homem perfeito.
Cecília: Perfeito eu não sei, mas parece um bom custo-benefício.
Marina: Vou te dizer que é, viu. Garçom, mais duas tequilas, por favor.

sob condições adequadas de temperatura e pressão

Uma música marcante de uma fase boa do passado é como um amor quase esquecido.

Se você não tiver vergonha do que foi e não renegar tudo que ocorreu desde então, nada impede que, ao escutar novamente na circunstância correta, sobrevenha aquele mesmo sentido, aquele mesmo encanto de outros tempos, acrescido da nostalgia e de certo distanciamento, como a lembrança de uma vida alheia. Isso, claro, se já tiver passado a fase do abuso, que dá quando se ouve muito a mesma coisa.

E aí você pode se pegar cantando de novo aquela velha música, por mais que pareça, então, inadequado dançá-la publicamente a passos de coreografia como você já fez um dia.

18 Novembro 2009


12 Novembro 2009

garota esperta 6

A mãe, preocupada com o futuro da garota, liga para o pai:
- Essa garota anda com um comportamento muito estranho. Com que tipo de gente ela anda convivendo quando está com você?
- Só gente de confiança, pode ficar tranquila.
- Ela passa o dia no quarto, lendo quadrinho e ouvindo música, de incenso aceso.
- Olha só que moça privilegiada essa nossa filha.
- Veio me dizer outro dia que achava que a mulher tinha o direito de decidir sobre seu corpo e seu futuro e que o SUS devia fazer aborto de graça.
- E você achou isso um absurdo?
- Acho que ela tá muito cheia de argumento pro meu gosto.

11 Novembro 2009

obviedades em tom de profecia

A loucura tem pressa, a solidão é um cavalo veloz.

toda satisfação é provisória

Ao pessimista, na hora do fracasso, cabe o conforto de dizer "eu já sabia".

05 Novembro 2009

justiça poética

queria te dizer
tudo que tenho pra falar
queria te contar
tudo que sinto por você

queria não sofrer
por te querer demais
desejo, rancor, ironia
até certo ponto

e morrerei ao decifrar
devorado por saber
onde fica ao certo esse lugar

que sequer sei se é um apenas
mas que não dista ao ponto que não busque
nem tão perto que minha vista alcance
***
E, ao ler aquele soneto pobre,
Sentenciou o presidente do Superior Tribunal do Lirismo:
"Cortem-lhe a cabeça"
Apontando para o poeta aflito
No país onde não era tolerado o romantismo ingênuo.

esses caras só me dão vergonha


Clique na imagem para ler, mas saiba já que não vale a pena.

04 Novembro 2009


insepulto

Não enterrarei esse amor
Que morreu de fome, de tédio, de susto

Deixo ao relento
Para que o vele o vento
Para que seque aos poucos

03 Novembro 2009

mais um xaveco furado


à falha de personalidade que surge, chamamos fatalidade
à que persiste, azar
quando se consolida, resta-nos apenas chamar de charme

nunca disse que era verdade

A muito custo consegui dormir, depois de noites e noites de insônia. Acordei de sobressalto com alguém que me cutucava no escuro. Era eu mesmo, naquele breu, querendo ter uma daquelas esclarecedoras conversas de si para si. Tentei voltar ao sono, mas minhas perguntas não deixavam. Virei de lado, mas lá estava eu, me olhando de frente, com novas indagações.

Perguntei se era mesmo comigo que eu queria falar. "Tanta gente mais interessante no mundo", eu disse, mas não bastou, o assunto era comigo mesmo. "Não podemos deixar para amanhã esse papo"? - foi o meu último recurso. "Não, não podemos", respondi, impassível.

Vendo-me acuado naquele interrogatório, tive de ser sincero, por mais embaraçoso que fosse: "você poderia repetir, eu não estava prestando atenção". Quantas vezes, sob pressão, não somos obrigados a dizer a verdade apenas para que não nos chamem de mentirosos.

E era justamente sobre isso que eu me indagava: a mentira. Exigia uma justificativa moral para os meus atos, alguns bastante questionáveis, eu bem sabia. Teria de defender minhas posições sobre o assunto caso quisesse me afastar da incoerência. E logo àquela hora da madrugada. Precisaria ser sincero, ou viveria irremediavelmente na inverossimilhança, coisa inadmissível a uma personagem fictícia. Comecei:
- A mentira tem sua função e sua importância, mas a vejo como um rito, uma religião, uma droga. Uma dessas coisas de que não devemos abusar. Mas aí, você viu  jogo do Curíntia ontem?
Tentei mudar de assunto, julgando que me daria por satisfeito, mas eu não tinha visto o jogo. Tive de continuar minha defesa:
- Olha, eu sei que você concorda comigo. Algumas pessoas simplesmente não precisam, não querem e nem farão nada depois de ouvir nossas verdades. Eu nada devo a elas. Minto só quando posso poupar um constrangimento, quando posso ser beneficiado pela dúvida, aquela mentira sobre sentimentos, que ninguém pode desmentir, aquela sobre palavras que pra cada um significam uma coisa diferente. 'Eu te amo', essas coisas. Não é uma questão de dizer ao meu amigo que os cadarços dele estão desamarrados uma vez que ele esteja de chinelos. O ponto central é a omissão de uma informação irrelevante. Não vou dizer ao cobrador do ônibus o quanto me irrita a sua mania de fazer aspas com os dedos, como se sua cabeça fosse uma citação. Não preciso elogiar a gravata do chefe, mas se eu puder omitir que acho a esposa dele uma gostosa, provavelmente vai ser melhor para todo mundo.
Já estava me empolgando com o argumento, e prestes a fazer confissões mais profundas, quando olhei ao redor e me deparei sozinho. Se bem me conheço, já estava cansado daquele meu papo besta. Além do mais, eu sabia que era tudo mentira.

02 Novembro 2009

a trégua forçada

Em meio a tantas galáxias, o planeta terra girava em torno do seu próprio eixo, indiferente. Nele, vidas surgiam e findavam ciclicamente, alternando-se o dia e a noite.

Alheio a tudo isso, o cavalo negro captura a torre branca. Apenas jogávamos xadrez.

Naquele momento, tudo que extrapolava os limites do tabuleiro e de sua coerência matemática perfeita residia, para nós, no campo da não-existência.

Foi então que, sem aviso nem licença, foi-nos imposta uma trégua:

A gatinha preta que, deitada, nos observava, subitamente levanta, salta sobre a mesa e, demonstrando sua supremacia sobre mais aquele reino, pata ante pata, solenemente atravessa o campo de batalha, indo se deitar na poltrona no canto oposto da sala, perante os olhares impassíveis e paralisados dos dois exércitos.

Pisando apenas nas casas vazias, sem derrubar ou sequer tocar peça alguma, ela passou de orelhinhas franzidas e olhar blasé, na espécie de falsa indiferença daqueles que querem ser notados, mas jamais admitiriam, simplesmente porque isso implicaria no reconhecimento da existência do observador.

Aquele movimento (aparentemente gratuito, considerando-se os demais caminhos, talvez menos belicosos, para que ela chegasse àquela mesma poltrona) provava-nos não apenas que ela podia pisar onde desejasse, mas também evidenciava a nossa condição de humanos úteis, embora dispensáveis.

 A nossa compenetração e o objeto de nossa disputa não tinham, para ela, qualquer significado, era o que diziam suas patinhas silenciosas e seu bigode petulante.

Numa existência sem acasos, como simboliza o rigor geométrico do tabuleiro, aquela teria sido apenas mais uma torre capturada pelo meu avô.

01 Novembro 2009


31 Outubro 2009

espetando pra ver até quando sai sangue

"Se você não precisa mais de mim, isso pode ser resolvido. Mas não diga que não te ajudei a chegar até aqui". - Disse a página arrancada do caderno do cara que temia parecer pedante por escrever em público.

Era como se os olhos das pessoas que passavam por ele, de caderno e caneta em mãos, dissessem "quem você pensa que é para escrever? Você não é escritor".

30 Outubro 2009

a palavra mal dita

a palavra mal dita
e seu retorno constante
soluço repentino da lembrança
a cena se repete

palavra dura como pedra
parte como vidro
e quando me esqueço
é como a espera

de uma antiga ameaça
um novo tropeço
que tudo traz à tona
e mais uma vez me leva ao fundo

29 Outubro 2009

é grave, mas é justo

É grave, mas é justo
Essa gravidade
Que tudo à volta faz que orbite

Cada erro acaba
Parecendo pouco
Logo passa

E contudo, tanta gente esquece
(Como se desse)
Da morte

Ou finge
Como se não fosse fato
Ou fosse de outro a sina

O destino é o ponto
O caminho é um trago
E hesito ainda - tanto.

coisas pra dizer numa entrevista de emprego - especial dinâmica de grupo

- Escolha um animal que melhor defina a sua personalidade.
- Eu escolho o ornitorrinco albino.
- Por quê?
- Porque já respondi essa pergunta cretina trocentas vezes, com todos os animais que eu conheço e nunca me serviu pra porra nenhuma.

contraditório como a vida deve ser

- Não vou fazer agora, mas é só para poder deixar pra mais tarde.

26 Outubro 2009


o primeiro conflito do MFT foi superado com duas brejas e algumas pérolas da sabedoria popular


23 Outubro 2009

claudinha: a maracatu gostosa do MFT

Clique na imagem caso queira ler o que a Claudinha tem pra contar.

Glossário: vantagens do relacionamento aberto, Wilhelm Reich, Movimento Foda-se Tudo, energia orgônica.

2012 - uma conversa de buteco perto de você

- É... o mundo não tem mais jeito mesmo.
- Você sabe, né, o calendário Maia só vai até 2012.
- Particularmente, eu acho que é porque eles não sabiam contar até 2013
- Eu acho que eles sabiam, mas pensaram que era perda de tempo. Eles nem achavam que a humanidade fosse durar tanto tempo.
- Eles mesmos acabaram bem antes.
- Ah, se eles te ouvem. Cuidado com as profecias, rapaz.
- Essas mudanças no clima são só o primeiro sinal do início da peça.
- Pode crer. Tornado em Santa Catarina, enchentes no nordeste, seca na maior bacia hidrográfica do planeta.
- Tudo muito estranho.
- É, mas ainda acho que o mundo vai acabar em meteoro.
- Se bem que esse lance do clima tem muito a ver com as atividades humanas. O problema é o culto da monogamia, saca: quando nego planta só cana-de-açucar, ou só gado.
- Aí fode.
- Por isso que eu vou cercar meu pedaço de terra em volta de um tanto de água lá em Alto Paraíso e fazer meu bunker.
- Boto fé. Pra ver de camarote a maré subindo e o céu pegando fogo.
- Aí neguinho que não é idiota vai achar que não entendeu.

22 Outubro 2009

ser humano: essa caixinha de insatisfações

Quando tudo parece perfeito é porque algo precisa mudar.

20 Outubro 2009

garota esperta - edição especial


chuva cai de cima e, quando pega, molha


19 Outubro 2009

discurso paralelo

Eu escutava inquieto o discurso da senhorita, minha coleguinha de curso, que explicava aos pais presentes, provavelmente leigos em assuntos acadêmicos, o quanto ela tinha aprendido no buteco do postinho nas quintas-feiras.

Ah, quantas lembranças... Quantas vezes ela teve de ensinar aos menos instruídos que o diploma que ela receberia naquela noite não era de "ciências políticas", ora vejam só, mas de Ciência Política, sem plural. Afinal, quem é do ramo sabe que ciência é uma só e política não é senão aquilo que ela tinha aprendido, entre uma e outra descoberta juvenil.

Enquanto ela falava, eu repassava mentalmente um discurso paralelo, mais ou menos o seguinte:

"Membros da mesa, colegas formandos, aquele abraço. Primeiramente, eu queria agradecer a Deus por ter me colocado numa boa família que, a muito custo, pagou os melhores colégios particulares caros para que eu tivesse o privilégio de estudar numa Universidade pública gratuita.

Agradeço também à UnB, que carimba de mérito o nosso passaporte para a vida adulta, tornando-nos distintos de todos aqueles que são explorados para que estejamos bem colocados nesta sociedade desigual.

Saúdo o movimento estudantil, a paridade nas eleições do reitor. E se a reputação desta Universidade tiver de ser jogada no lixo com cobranças indevidas de cerimonial e desvio de dinheiro destinado a pesquisa, que ao menos seja jogada numa lixeira de mil reais.

Para encerrar, senhor presidente, deixo aqui um beijo molhado para aqueles que tem pouca familiaridade com a palavra ironia. Obrigado".

14 Outubro 2009

personalidade: ou você tem, ou você compra

Escrevemos autobiografias
Idealização a gosto do freguês
Orçamento sem compromisso

09 Outubro 2009

Ilhados

“O paraíso é aqui” foi a expressão utilizada por Américo Vespúcio, em 1503, para descrever Fernando de Noronha, no primeiro registro histórico de presença humana na ilha. O naufrágio de uma das naus da “Segunda expedição exploradora” nas proximidades do arquipélago parece não ter abalado o senso estético do navegador de Florença.

No entanto, por mais de um século, a ilha não teve ocupação ordenada, sendo usada eventualmente como entreposto e pit stop por navegadores perdidos ou piratas da região do Caribe.

Foi apenas em 1737 que a Coroa portuguesa, após tentativas frustradas de invasão de ingleses, holandeses e franceses, finalmente iniciou a ocupação definitiva da ilha por seu valor estratégico na defesa nacional.

A ilha, que já foi presídio, hoje vive do turismo ecológico, elevada à categoria de Patrimônio Mundial pela Unesco por conta da biodiversidade marinha e dos diversos institutos de pesquisa sediados ali. Golfinho rotador, baleia jubarte e tartaruga marinha são algumas das espécies estudas.

Pelo seu status de Parque Nacional, são muito restritas atividades econômicas de qualquer natureza, em especial agricultura e pecuária, o que encarece ainda mais o custo de vida no local, já elevado pelo alto custo do transporte oriundo do continente e pela pressão dos dólares do turismo internacional.

O espaço limitado e as regras rígidas para construção e permanência na ilha tornam a moradia um dos principais problemas do local. As pessoas sem educação formal, em geral descendentes de presidiários, militares e pescadores, são as mais afetadas pela dificuldade de adequação aos procedimentos burocráticos exigidos.



O foco do documentário "Ilhados", gravado durante um mês em Noronha, foi a vida dos moradores, as dificuldades e os motivos de permanência na Ilha, geralmente esquecidos pelos turistas (por motivos até compreensíveis) e por outras reportagens, geralmente focadas na beleza do lugar e na exuberância da vida marinha.

Uma produção Projeto Viramundo: João Queirolo, Camilla Shinoda, Cauê Maia, Leonardo Feijão, Melissa Mustefaga, Rebeca Damian.