17 março 2010

considerações sobre o plágio

Faz um tempo já desde que acredito que, por si, o fato de já ter sido dita uma frase no passado não retira a autoria de quem a diga num momento posterior. Mais objetivamente: frases são muito curtas para que se reivindique autoria.

O ineditismo reside na formulação inovadora, mas a partir de elementos já disponíveis e partilhados socialmente, como a linguagem, a história, algo como um inconsciente coletivo, etc. A invenção de uma mesma frase pode ocorrer em lugares e momentos distintos, sem que uma influencie diretamente a outra, mas antes sendo frutos de uma origem partilhada.

Probabilisticamente, é necessário produzir mais que aforismos para se reivindicar o título de autor. Ou, ao menos, que se produzam muitos (ou que se roubem vários), para que o conjunto forme uma obra em si, diferente da soma de suas partes.

Um autor poderia perfeitamente incorrer em plágio sem jamais saber que aquela mesma conjunção de variáveis já havia sido experimentada. As preocupações humanas são recorrentes através do tempo, o que torna possível o diálogo com o passado ao mesmo tempo que constantemente molda as possibilidades futuras, com a criação de novas necessidades, como a contratação de um personal ipoder.

Levando em conta que o conhecimento é uma construção coletiva, se existe algo que ainda não foi dito, escrito ou pensado, parece ser mais por falta de oportunidade ou de matéria prima do que pela ausência de algum grande talento individual que nos guie em meio às trevas.

A morte é a única certeza, e para além dela resta apenas o desejo de não ser esquecido (fuga do medo do fim), como expressa a velha tríade das realizações de uma vida plena: ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore. Ideais de reprodução cultural, afetiva e biológica.

Nessa perspectiva, o plágio é apenas mais uma dessas formas de perpetuação. Eu mesmo mal posso esperar que roubem algo que escrevi. Seria enfim um sinal de que vale alguma coisa. O aprendizado perdura à morte do mestre, caso o mesmo valha ser lembrado.

E com essa tal de internet, nunca foi tão fácil e rápido plagiar (compartilhar, difundir, divulgar, roubar) propriedade intectual. Gosto mais daquele papo romântico de que filhos, arte e ciência, depois de feitos, são do mundo, não de quem os fez (ainda que considere legítimo o trabalho dos cientistas, artistas e reprodutores que, por sua contribuição à humanidade, merecem receber o seu sustento material).

Nunca temeu-se tanto a perda do direito e do controle sobre as próprias criações. Parece-me inevitável. A alternativa seria guardar a sua obra-prima num cofre enterrado, numa espécie de desprezo mútuo pela contemporaneidade, e esperar que os escafandristas lhe descubram e lhe reconheçam algum mérito póstumo.

Ou simplesmente não produzir mais nada.

3 comentários:

J. disse...

Eu já tive (e ainda tenho) vontade de "roubar" várias das coisas que você escreve... Acho que a questão é delicada, porque, como você disse, na internet, torna-se muito fácil copiar. Não acho que utilizar ideias já usadas seja plágio. Acho que copiar trechos inteiros sem umas aspas ou sem uma citação, isso sim é. De certa forma, é inevitável, embora às vezes chateie um pouco.
(posso roubar algumas das suas coisas? rs)

Beijo, querido, saudade.

Marina disse...

“O livro, como um livro, pertence ao autor, mas como um pensamento, ele pertence – a palavra não é tão vasta – à humanidade como um todo. Todas as pessoas possuem este direito. Se um desses dois direitos, o direito do escritor e o direito do espírito humano, tiver que ser sacrificado, certamente o direito do escritor seria o escolhido porque o interesse público é a nossa única preocupação, e todos, eu vos digo, devem vir antes de nós.” (Victor Hugo, Discurso de Abertura do Congresso Literário Internacional de 1878)

Iury disse...

caralho. acabei de reler depois de muito tempo. ficou muito bom